Propaganda enganosa
Sitônio Pinto
Recentemente vi um filme promocional de turismo da Paraíba, relativamente bem feito, mas portador de uma grande mentira sobre o Estado. A peça estava sendo exibida num monitor de TV da recepção de um hotel da orla marítima. Disseram-me que sua veiculação se destinava mais ao mercado externo, isso é, aos pólos emissores de turismo, principalmente para exibição nas feiras, congressos, agências de viagens etc. Não sei quem criou e produziu o filme, pois não esperei pelo final para ver os créditos (nem quero saber). A fotografia era razoável, o feijão-com-arroz das peças publicitárias, a paisagem facilmente identificável para quem conhece a terra dos irmãos Arruda Câmara, de Zé Lins, de Augusto dos Anjos, embora o filme não referisse esses nomes – nem outros do mesmo prestígio, como Chateaubriand, Ariano Suassuna, Celso Furtado, José Siqueira, Pedro Américo ou Ivan Freitas. Penso que não seria pedir demais para um comercia,l mesmo destinado ao grande público. Pois deve interessar ao turista que para aqui vem, conhecer a Paraíba do fundador da Ordem dos Músicos do Brasil e da Orquestra Sinfônica Brasileira, que foi o maestro José Siqueira; a Paraíba do fundador dos Diários Associados e da televisão brasileira, que foi Assis Chateaubriand; a Paraíba do único presidente dos três poderes da República, que foi Epitácio da Silva Pessoa; a Paraíba do romancista José Lins do Rego, do poeta Augusto dos Anjos, do teatrólogo Ariano Suassuna, do economista Celso Furtado; dos pintores Pedro Américo, Ivan Freitas, Miguel dos Santos, Flávio Tavares, João Câmara e Raul Córdula; a Paraíba dos cineastas Vladimir Carvalho, Linduarte Noronha, Rucker Vieira e João Ramiro, que fundaram o Cinema Novo Brasileiro, conforme disse Glauber Rocha, e dos cineastas Walter e Lula Carvalho, continuadores de Vladimir; a Paraíba dos compositores e instrumentistas Sivuca e Radegundes Feitosa, considerados, respectivamente, o maior acordeão e o maior trombone do mundo; a Paraíba de Zé, Luiz e Elba Ramalho; a Paraíba de Vital Farias, de Jackson do Pandeiro, de Canhoto e de Ratinho (aquele que compôs o chorinho “Saxofone, por que choras?”). A Paraíba dos grandes nomes que Pernambuco, às vezes, quer encampar, como Ariano, Chateaubriand, Celso Furtado, Raul Córdula e João Câmara, e dar de troco, desterrado e banido, um bandido do Vale do Pajeú que fez derramar tantas lágrimas e tanto sangue no Nordeste Brasileiro. Ou Pernambuco quer deportar ou a Paraíba quer importar o facínora execrável, sem nenhuma necessidade, e dele fazer propaganda enganosa (art. 67 do Código de Defesa do Consumidor), mostrando ao turista, no seu filme promocional, a figura abominável do facínora e seus asseclas, encartucheirados e armados, dançando xaxado – que não é dança de cangaceiros, mas de trabalhadores, de agricultores, pois a palavra, onomatopéica, é derivada do som produzido pela enxada na faina de capinar, e da própria palavra “enxada”, ouça-se “xa-xa-do” – como se paraibanos fossem. Mesmo os passos da dança repetem o caminhar de quem capina, de quem limpa uma roça, ou abre suas covas, “puxando cobra pros pés”. O xaxado não é dança de cangaceiros, mas de trabalhadores pacíficos, assim como os cangaceiros não são da Paraíba, o quarto estado brasileiro com menor índice de homicídios. Mas é o que se vê, não só no cinema publicitário, mas nos restaurantes, nas escolas, nas lojas, a imagem do cangaço como símbolo da Paraíba, – berço de grandes nomes disputados por outros estados, que fazem a glória de sua terra e do Brasil.
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
Apologia do crime
Apologia do crime
Sitônio Pinto
Um dos restaurantes mais badalados da Paraíba, que explora o gênero de cozinha típica, ou regional, utiliza como identidade mercadológica o tema do cangaço. Seus funcionários apresentam-se vestidos de cangaceiros, encartucheirados e de faca à cinta. Logo à entrada, como recepcionistas, os bonecos (gimmicks) de um casal de facínoras que chefiou um bando de celerados e aterrorizou a família e a população rural nordestinas na primeira metade do século. Os gimmicks estão devidamente vestidos à caráter, chapéu de couro, lenço ao pescoço, embornais, alpercatas, roupa de mescla, fuzis (paus-furados) a tiracolo. Somente a cara não aparece, pois deixa um vazio para os otários pousarem, por detrás da macabra figura, o seu rosto aparecendo no lugar da carantanha dos bandidos, como se eles fossem.
Lembro-me de Raymundo Yasbeck Asfora, numa das noites temperadas de Campina Grande, advertindo: “já é tempo de a Paraíba adotar outra marca diferente de seca e cangaço”. Tempos depois, o poeta e orador cearense, adotado paraibano, tombava assassinado pelo cangaço remanescente na Serra da Borborema.
A observação de Asfora nunca me saiu da lembrança. Foi assim que criei e dei à Paraíba seu slogan “Onde o sol nasce primeiro”, encomendado por Gonzaga Rodrigues, quando este era Secretário da Comunicação do primeiro governo Burity. Fizemos um filme, arrematado pelo slogan no final, com a participação do próprio Gonzaga, de Martinho Moreira Franco, de Luiz Augusto Crispim e de Chico Mozart. Os dois útimos já morremos. Gonzaga me pagou e me deu o crédito do filme, numa crônica intitulada O Pau da Paraíba, publicada na sua coluna e perpetuada no seu livro Filipéia e Outras Saudades, pp 16/17. E o slogan perdura até hoje, propagado boca-a-boca e nos meio de comunicação do País.
Mas não é só o restaurante “regional” que difunde a ideologia do cangaço associada à Paraíba. Um dos mais conhecidos colégios desta Capital das Acácias (que bela marca, esta que o poeta Jomar Souto deu a sua cidade!) usou, como figuras decorativas de seu São João, as figuras macabras do casal de cangaceiros.
Não sei o que o tema “cangaço” possa a ter com o São João ou com a Paraíba. Além de estranha à temática joanina, a execrável dupla de bandoleiros não é paraibana. O bandido é pernambucano de origem cearense, pois seu pai saiu arribado do Ceará, onde cometeu um crime, para se homiziar em Vila Bela, Pernambuco; e a bandida é baiana, de onde saiu após chifrar e largar o marido para entrar no cangaço, roubar e matar o povo.
A Paraíba tem outros nomes e outros valores. Só na Academia Brasileira de Letras já colocou sete de nomes. E o índice de homicídios da Paraíba é um dos menores do Brasil: o 24º lugar entre 27 estados, em que pese a propaganda em contrário, como essa do restaurante e do colégio burgueses. Seria bom que o Ministério Público conferisse se o procedimento dessas instituições se enquadram no art. 287 do Código Penal: “Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime: pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.”
A família paraibana, enlutada, agradece.
Sitônio Pinto
Um dos restaurantes mais badalados da Paraíba, que explora o gênero de cozinha típica, ou regional, utiliza como identidade mercadológica o tema do cangaço. Seus funcionários apresentam-se vestidos de cangaceiros, encartucheirados e de faca à cinta. Logo à entrada, como recepcionistas, os bonecos (gimmicks) de um casal de facínoras que chefiou um bando de celerados e aterrorizou a família e a população rural nordestinas na primeira metade do século. Os gimmicks estão devidamente vestidos à caráter, chapéu de couro, lenço ao pescoço, embornais, alpercatas, roupa de mescla, fuzis (paus-furados) a tiracolo. Somente a cara não aparece, pois deixa um vazio para os otários pousarem, por detrás da macabra figura, o seu rosto aparecendo no lugar da carantanha dos bandidos, como se eles fossem.
Lembro-me de Raymundo Yasbeck Asfora, numa das noites temperadas de Campina Grande, advertindo: “já é tempo de a Paraíba adotar outra marca diferente de seca e cangaço”. Tempos depois, o poeta e orador cearense, adotado paraibano, tombava assassinado pelo cangaço remanescente na Serra da Borborema.
A observação de Asfora nunca me saiu da lembrança. Foi assim que criei e dei à Paraíba seu slogan “Onde o sol nasce primeiro”, encomendado por Gonzaga Rodrigues, quando este era Secretário da Comunicação do primeiro governo Burity. Fizemos um filme, arrematado pelo slogan no final, com a participação do próprio Gonzaga, de Martinho Moreira Franco, de Luiz Augusto Crispim e de Chico Mozart. Os dois útimos já morremos. Gonzaga me pagou e me deu o crédito do filme, numa crônica intitulada O Pau da Paraíba, publicada na sua coluna e perpetuada no seu livro Filipéia e Outras Saudades, pp 16/17. E o slogan perdura até hoje, propagado boca-a-boca e nos meio de comunicação do País.
Mas não é só o restaurante “regional” que difunde a ideologia do cangaço associada à Paraíba. Um dos mais conhecidos colégios desta Capital das Acácias (que bela marca, esta que o poeta Jomar Souto deu a sua cidade!) usou, como figuras decorativas de seu São João, as figuras macabras do casal de cangaceiros.
Não sei o que o tema “cangaço” possa a ter com o São João ou com a Paraíba. Além de estranha à temática joanina, a execrável dupla de bandoleiros não é paraibana. O bandido é pernambucano de origem cearense, pois seu pai saiu arribado do Ceará, onde cometeu um crime, para se homiziar em Vila Bela, Pernambuco; e a bandida é baiana, de onde saiu após chifrar e largar o marido para entrar no cangaço, roubar e matar o povo.
A Paraíba tem outros nomes e outros valores. Só na Academia Brasileira de Letras já colocou sete de nomes. E o índice de homicídios da Paraíba é um dos menores do Brasil: o 24º lugar entre 27 estados, em que pese a propaganda em contrário, como essa do restaurante e do colégio burgueses. Seria bom que o Ministério Público conferisse se o procedimento dessas instituições se enquadram no art. 287 do Código Penal: “Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime: pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.”
A família paraibana, enlutada, agradece.
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