Riso
Sitônio Pinto
Por muitos e bons anos Riso foi agente de arte em Paris, expondo e promovendo artistas plásticos brasileiros, locais e do mundo inteiro que a procuravam para entrar no mundo das artes, da fama e da glória. Foi uma espécie de embaixadora brasileira em Paris, dizia seu amigo Palmary Lucena, ele também uma espécie de embaixador brasileiro junto a tantos organismos internacionais em que trabalhou, agora publicando sua experiência de globe-trotter em insuperáveis artigos que promete transformar em livro.
Riso era filha do emérito professor Raul Córdula e de Dona Elizabete Trevas Córdula, ele meu mestre de Latim no curso Clássico do Lyceu, lá no começo dos anos sessentas. Naquele tempo, tudo que se fazia no setor de educação, na Paraíba, tinha de passar sob o crivo do professor Raul Córdula, mestre não só em Latim, mas ainda em Pedagogia. Era um homem literalmente esperto e ativo: viveu acordado durante muitos anos, absolutamente sem dormir. Uma noite, alta noite, em meio de uma farra, passei por sua casa e vi a luz acesa. Não me lembrei do detalhe da insônia do professor; pulei o muro e chamei por Raul (o Córdula Filho), meu colega do Liceu e do grupo dos “Párias” – ambiente que envolvia a Geração 59.
- Quem é?
- É Dom Quixote, Pária!
Ao ouvir a expressão “Pária”, o mestre entendeu que o chamado não era para ele, e, um tanto perplexo, foi acordar o filho:
- Raulzinho, tem uma cara aí chamando por você, dizendo que é Dom Quixote.
Riso era a irmã mais velha do meu irmão Raul, o pintor de “A vendedora de flores” e da série “Borborema”, premiado internacionalmente. A irmã mais velha de Leda, de quem falei há poucos dias, nessa coluna, como a ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival Nacional de Teatros de Estudantes, realizado em Santos, SP, nos idos de 1959. Era a irmã mais velha de Betinha Kawamura; a irmã mais velha de Roberto e de tantos nós, principalmente daqueles que foram buscar seu apoio para entrar no mundo das artes de Paris – onde tinha um círculo mágico de amizades, em que se destacava o escritor Paulo Coelho.
Durante muitos anos, Riso lutou bravamente contra o lobo do câncer. Sua luta desigual contra o inimigo feroz faz lembrar a passagem de Paulo Coelho em “O Demônio e a Srta. Prim”:
- Agora mostre que é um homem – gritou. – Desça da árvore, segure firme o archote, e mantenha o fogo na direção do lobo!
[...] O lobo recuara, estava assustado com o fogo: continuava a rosnar e saltar, mas não chegava perto.
Riso era uma espécie de irmã mais velha de sua geração. De Palmary Lucena a Glória Gadelha, dos artistas brasileiros que precisavam de um referencial na França. E deixou-nos uma irmã belíssima – sua filha Cristina Córdula -, a grande manequim brasileira internacional, capa das revistas do mundo, que abriu caminho para as estrelas de hoje e que ainda brilha sob o céu de Paris.
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
Garrafas ao mar
Garrafas ao mar
Sitônio Pinto
Nos tempos dos navios de pau e pano (e dos homens de fé e ferro), quando ainda não havia rádio, nem Morse, nem Internet, nem celular, a comunicação de quem se fazia ao mar com sua base em terra era bem mais difícil de que nos dias (e nas noites) de hoje. Veja-se, por exemplo, quando Pedro Álvares Gouveia Cabral “achou” o Brasil: ele despachou um navio para Lisboa a fim de dar a notícia a El Rei, levando a notável Carta de Caminha. Para os sobreviventes de naufrágios, a comunicação era ainda difícil. É clássica a romântica figura da garrafa ao mar, em que o solitário de alguma ilha deserta escreve uma mensagem, bota numa garrafa salvada ao sinistro e deita-lhe ao mar, na esperança que as correntes levem-na às mãos de alguma praia em “terras de Espanha ou areias de Portugal”.
Uma crônica é mais ou menos assim; às vezes chega a destinos. Nesse meu retorno ao colunismo, as mensagens mal-traçadas que rascunho todos os dias têm encontrado albergue e eco nas ripostas de leitores ilustres – como o que lê, agora, esta coluna. Recebi, de volta, garrafas que me chegaram navegantes polos mares da Net, com seu estímulo e esperanças de salvamento.
E assim foi com a mensagem da Bela Marília Gil Messias de Melo (bela duas vezes, porque também é bacharela e, portanto, Bela no jargão jurídico), cronista que está para aparecer; escreveu-me ainda a Bela Cleide Maria Ramalho de Farias, reclamando porque este escriba deixara a crônica, mas congratulando-se pelo meu retorno; deu-me notícias e apoio, também, a Bela Myriam Yasbeck Asfora, professora de Direito Agrário da Universidade Rural de Pernambuco, irmão do inesquecível tribuno; recebi e-mail da médica e escritora Clotilde Santa Cruz Tavares, autora do imperdível blog Umas & Outras. Após quatro anos na Paraíba, Clotilde está voltando para Natal. Quem ou o que terá levado essa bela mulher para a República Comunista do Rio Grande do Norte – a primeira da América e única do Brasil, nos idos de 1935?
A Doutora Maria da Paz Gomes Silvino, psiquiatra e escritora, também deu o ar de sua graça ao carente cronista, com sua sabedoria solidária; outra Doutora que aplaude (e eu esperava isso) a reabertura desta coluna foi a escritora e compositora Maria da Glória Pordeus Gadelha, para mim Glória Pordeus, a parceira de Sivuca e minha confrade no Conselho Estadual de Cultura; a Pós-Doutora Simone Dantas Carneiro Maldonado, escritora e professora na Paraíba, Ceará e Canadá, envia seu apoio tão humano, mesmo por vias eletrônicas;
O intelectual, professor, poliglota e tradutor José Iremar Alves Bronzeado, que me ensinou economia na UFPB, faz vista grossa e aprova o colunista; o Bel Aldo Lopes Diniz, escritor premiado, agora delegaldo civil no Rio Grande do Norte, emala e telefona seu estímulo; o pintor e escritor Raul Córdula Filho, companheiro de geração, manda seu apoio com todas as cores; o poeta e jornalista Antônio Mariano, animador cultural, editor do Correio das Artes, remete sua força em caixa-alta. Até o rabi Gonzaga Rodrigues deu-me o rubi de sua palavra.
Aguardo você, leitor amigo, nesse endereço ao cimo da página. Sua mensagem navegante é indispensável à continuidade dessa crônica nessa ilha Brasílis, à espera de achamentos.
Sitônio Pinto
Nos tempos dos navios de pau e pano (e dos homens de fé e ferro), quando ainda não havia rádio, nem Morse, nem Internet, nem celular, a comunicação de quem se fazia ao mar com sua base em terra era bem mais difícil de que nos dias (e nas noites) de hoje. Veja-se, por exemplo, quando Pedro Álvares Gouveia Cabral “achou” o Brasil: ele despachou um navio para Lisboa a fim de dar a notícia a El Rei, levando a notável Carta de Caminha. Para os sobreviventes de naufrágios, a comunicação era ainda difícil. É clássica a romântica figura da garrafa ao mar, em que o solitário de alguma ilha deserta escreve uma mensagem, bota numa garrafa salvada ao sinistro e deita-lhe ao mar, na esperança que as correntes levem-na às mãos de alguma praia em “terras de Espanha ou areias de Portugal”.
Uma crônica é mais ou menos assim; às vezes chega a destinos. Nesse meu retorno ao colunismo, as mensagens mal-traçadas que rascunho todos os dias têm encontrado albergue e eco nas ripostas de leitores ilustres – como o que lê, agora, esta coluna. Recebi, de volta, garrafas que me chegaram navegantes polos mares da Net, com seu estímulo e esperanças de salvamento.
E assim foi com a mensagem da Bela Marília Gil Messias de Melo (bela duas vezes, porque também é bacharela e, portanto, Bela no jargão jurídico), cronista que está para aparecer; escreveu-me ainda a Bela Cleide Maria Ramalho de Farias, reclamando porque este escriba deixara a crônica, mas congratulando-se pelo meu retorno; deu-me notícias e apoio, também, a Bela Myriam Yasbeck Asfora, professora de Direito Agrário da Universidade Rural de Pernambuco, irmão do inesquecível tribuno; recebi e-mail da médica e escritora Clotilde Santa Cruz Tavares, autora do imperdível blog Umas & Outras. Após quatro anos na Paraíba, Clotilde está voltando para Natal. Quem ou o que terá levado essa bela mulher para a República Comunista do Rio Grande do Norte – a primeira da América e única do Brasil, nos idos de 1935?
A Doutora Maria da Paz Gomes Silvino, psiquiatra e escritora, também deu o ar de sua graça ao carente cronista, com sua sabedoria solidária; outra Doutora que aplaude (e eu esperava isso) a reabertura desta coluna foi a escritora e compositora Maria da Glória Pordeus Gadelha, para mim Glória Pordeus, a parceira de Sivuca e minha confrade no Conselho Estadual de Cultura; a Pós-Doutora Simone Dantas Carneiro Maldonado, escritora e professora na Paraíba, Ceará e Canadá, envia seu apoio tão humano, mesmo por vias eletrônicas;
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